Humanos mas inconscientes
| A despeito de toda a problemática à minha volta sou forçado a escrever. Não posso, não devo, pelo bem de minha saúde, me esforçar além de um certo limite, que já não é tão longo...
Somente três são escolhidos, a principio. Os mais fortes. Isso, para mim, é Eugenismo. Depois, das três remanescentes, descartam-se mais duas vidas e uma delas é inserida no útero da mulher que deseja ter um filho. É fato que está vida pode decidir-se por se multiplicar por cinco, por exemplo, mas as mortes anteriores não são apagadas com isso.
Mas crianças abandonadas há em qualquer lugar.
Será o desejo mesquinho de se “perpetuar o “próprio sangue?” Ou será que é inaceitável criar uma criança “sem boa origem”? O que seria esta “boa origem?” Não têm, estas pessoas, o mesmo potencial que cada um de nós carrega embutido em si? E tudo o que lhes falta não é a oportunidade, o lar asseado, o carinho de mãe virtuosa e abnegada e os rigores de um pai honesto e digno? São perguntas que ninguém ousa responder. Porque a resposta é óbvia. Tamanho empenho tem base no egoísmo e no orgulho, catalisadores de toda a miséria humana, de toda tragédia humana, de toda a desgraça humana que campeia neste planetóide esquecido no braço de Órion, num canto remoto da Via Láctea.
Penso que o que legitima a Maternidade e a Paternidade são os longos anos de vigília e cuidados na criação de uma criança.
E que isso, muitas vezes, segue pela vida adulta com, isso é sabido por todos, o total desamparo de pai e mãe na velhice... Quem não conhece aquela música de Sérgio Reis que falava nos sete filhos? Pois é... O que eu quero dizer é que na adoção e na gravidez devemos ter as mesmas expectativas: A criança que nasce pode ser uma benção ou não... A mesma coisa com a criança adotada
Dos doze aos dezessete e tra-lá-lá... Sei o que passei e o que vivi. E o quão importante me era, às vezes, um copo de café com leite quente e um modesto pão com manteiga... Brindes raros, caríssimos, muitas vezes inalcançáveis... E esta situação mesquinha não para por aí. São restaurantes jogando comida fora, prédios abandonados ao léu que poderiam servir de refúgio ou hospital, ou escola, ou creche, ou o que seja de útil para os menos favorecidos, mas...
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Então, o que caiu em desgraça sai à rua e toma para si, à viva força, ao preço de outras vidas humanas, aquilo que ele precisa, que lhe é necessário, e que lhe é negado redundantemente.
E são presos. E presos, são violentados em todos os seus direitos (os poucos que restaram); e são julgados e condenados.
EX-PRESIDIÁRIO. E este homem ou mulher, outrora um menino ou menina repletos de um potencial benéfico, com todas as possibilidades de se tornarem engenheiros, cientistas, professores, astronautas e tudo que o engenho humano foi capaz de criar (mas não foi capaz de distribuir), se torna um ser frio, calculista, que já não respeita mais nada, que perdeu, ou nem recebeu, todos os valores que, em conjunto, chamamos “moral.”
Pois ela abandona à própria sorte, deixando à mercê da assistência social, todos aqueles que, por uma razão ou por outra, caem em desgraça e, desdenhados da sorte e da vida, não conhecem o sentido verdadeiro da palavra lar, dos fundamentos da família, dos prodígios que o afeto e os laços íntimos de uma moradia digna e segura estabelece entre seres humanos. Pois que somos, a despeito de tudo, humanos, embora inconscientes.
Isso é um deboche. E ele ainda diz: “O dinheiro é de origem maravilhosa... ” Ali Babá também considerava sua fortuna maravilhosa, é verdade. Mas pelo menos ele era um ladrão honesto, que usava uma espada e cavalos para enfrentar seus oponentes antes de saquear.
Chega. Para mim basta. Um casal gastando uma fortuna para tentar ter um filho. Uma criança deitada na calçada da Avenida Ipiranga, em frente ao Edifício Copan. Um técnico de laboratório “descartando embriões”. E num grupo de engravatados tramando, com vinho à rodo, o próximo golpe a ser dado em nossos cofres. Com isso, me despeço. Vou tentar. Eu digo tentar dormir. Durmam também. Se puderem. São Paulo, 29 de julho de 2003 Claudio Santos de Souza www.soropositivo.orgt
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